Miséria em Cuba.
Início de 2026.
É inverno em Cuba. Nas paredes de pedra do Malecón, o mar explode em fúria fria. Penso que somente Fidel e os revolucionários a bordo do Granma poderiam vencê-lo nessas condições. Logo, porém, me distraio numa pausa demorada para observar o mar, que, como advertia Leminski, não parou para ser olhado. Fotos. A água nos espreita. Subimos em direção ao Capitólio. Viramos à esquerda, que é sempre o melhor caminho. Depois de atravessar o emaranhado de destinos que costura o coração de Havana Vieja, chegamos à Calle Mercaderes. Da parede de um café, nos acena Eça de Queiroz. Parece que pelos idos de mil oitocentos e setenta e poucos, quando cônsul na cidade, o escritor português gostava de frequentar o espaço. Entramos. Peço um expresso que, felizmente, não será expresso, pois o relógio cubano corre diferente. Enquanto aguardamos, a barista cantarola repetidas vezes, como em oração: – ¡Hace tanto frío, oh Dios mío, hace tanto frío, pobrecita de mí, pobrecíta de mí! Era meio de tarde e naquele momento a temperatura acusava implacáveis 26 C. – Uma capixaba em Cuba. Sorrisos. O café chega, mais ligeiro do que desejávamos. Um, dois goles. A mulher tinha razão. – ¡Hace tanto frío, oh Dios mío, hace tanto frío, pobrecito de mí, pobrecíto de mí! Antes de encerrarmos, uma senhora esguia, de setenta e poucos anos, corta o salão vazio em diagonal e nos repete uma frase que havíamos ouvido outra dúzia de vezes na Ilha: – La necesidad es muy grande. Eu tinha alguns pesos e dólares, mas ela queria medicações. Me disse que, caso sobrasse alguma cartela de remédio, poderia deixar por lá, no café mesmo. Ela também toma o seu expresso e sai pelas ruas. Em segundos some em meio a um grupo de turistas acompanhado por ex-integrantes – legítimos – do Buena Vista Social Club. Reunidos, seguem cantando pela rua rumo ao Festival do Charuto, organizado pelo próprio Raúl Castro, que, para a sorte deles, só aconteceria no final daquele dia e das demais datas subsequentes deste ano solar. Saímos de lá e duas ou três quadras nos separam de La Bodeguida del Medio. Já havíamos provado nos dias anteriores o famoso mojito da casa, apontado por Hemingway como sendo o melhor da Ilha. Mas, é como dizem: – Sempre bom repetir o experimento antes de afirmar qualquer coisa que seja. Na parede, a lembrança de que Salvador Allende também fora um frequentador do espaço. No balcão, algo entre dez e quinze corpos estrangeiros disputam lugar. Alguns brasileiros compõem o ambiente. Penso não haver nenhum Hemingway ou Allende ali. Mas: – Quem sabe? Afinal, quem visita Havana, em alguma medida, é revolucionário ou artista. Ou absurdamente desinformado.A dinâmica por lá, em La Bodeguida, é simples: oito dólares pelo mojito, dois para o chapéu dos músicos. E a rotatividade de clientes é tão grande como a de artistas. Você estaciona no balcão, pede a sua bebida e escuta três ou quatro músicas de um conjunto. Se você pedir a segunda rodada, certamente a banda será outra. Tomamos dois mojitos cada. Ao saber que éramos brasileiros, os artistas do segundo grupo falaram de futebol, novelas e outras coisas que nos fazem refletir sobre qual imagem exportamos para o país comunista. A música recomeça. Duas turistas se empolgam com o Chan Chan e fazem fotos e vídeos. Abraçam os músicos, dançam. Esbarram nos instrumentos. Sorrisos amarelos. Reclamam da gorjeta. Pagam os mojitos e se vão, sem contribuir com o chapéu dos músicos. – Quanta miséria dessas duas. Saem e já são abordadas na rua. De lá são levadas para o Festival da Salsa, organizado pelo próprio Raúl Castro, que, para a sorte delas, só aconteceria no final daquele dia e das demais datas subsequentes deste ano solar. Estão no grupo dos absurdamente desinformados, mas não tardam em aprender. As ruas de Havana ensinam sobre uma arte que há décadas está presente: a de sobreviver ao bloqueio ianque. Saímos. Parte da nossa moral burguesa ficou no bar e nas ruas da capital revolucionária. Crianças jogam bola na rua. Um adolescente acende um charuto.