24/05/2017
18/05/2017
Mesa "Austeridade, mídia e criminalização da vida"
Participo hoje, às 18h, da mesa "Austeridade, mídia e criminalização da vida". O evento será realizado no auditório do IC-II, do Centro de Ciências Humanas e Naturais, no campus de Goiabeiras da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Estarão comigo na mesa as professoras Ana Carolina Galvão (Centro de Educação da UFES) e Ana Heckert (Departamento de Psicologia da UFES). Também estará presente o professor Acácio Augusto (Departamento de Sociologia da UVV).Realizada em conjunto pelo Fórum Capixaba de Lutas Sociais e pelo Fórum Permanente de Linguagem, do Departamento de Línguas e Letras da UFES, a mesa tem como objetivo principal discutir a criminalização da vida das pessoas mais pobres pela mídia, sobretudo a partir das políticas de austeridade praticadas no Espírito Santo.
Mais informações no site da UFES.
05/04/2017
A origem do ódio de Jair Bolsonaro aos quilombolas (artigo de opinião)
A origem do ódio de Jair Bolsonaro aos quilombolas (05/04/17)
Escrevo este breve artigo doze horas depois de testemunhar, através de relatos e vídeos publicados em diferentes portais de notícia, o gravíssimo ataque racista praticado pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) contra as comunidades quilombolas – logo, redijo ainda no calor do “incômodo” [para não dizer outro termo menos elegante].
Preciso concordar que não existe uma grande novidade na pauta, afinal, todos nós, progressistas, sabemos que o parlamentar em questão adota práticas e discursos conservadores que estão impregnados de machismo, misoginia, homofobia... e por aí vai. Na verdade, a turma reaça também sabe disso, só finge que não, pois compartilha das mesmas opiniões. Portanto, é imperativo entendermos que não lidamos com um, mas – por mais nefasta que a imagem possa parecer – com uma massa acéfala e amorfa de “Bolsonaros”. Daí a importância de entender o ódio que move essa gente, evitando a naturalização de qualquer modus operandi fascista.
As origens para o discurso e as práticas de ódio são diversas e não têm uma explicação simples, mas certamente passam por uma sociedade doente, composta por indivíduos semiformados (do alemão “halbbildung”), incapazes de agir e pensar criticamente. No referido contexto, podemos dizer que Bolsonaro e sua trupe se enquadram perfeitamente naquilo que o filósofo e sociólogo frankfurtiano Theodor Adorno (1903-1969) chamou de síndrome fascista (ou da personalidade autoritária), fenômeno sóciopsicológico caracterizado pela identificação com as elites, pelo preconceito étnico e racial, pela obsessão em relação à sexualidade, pela agressividade reprimida e pelo sadomasoquismo.
Destarte, considerando tal cenário, um caminho importante para entender o ódio seria buscar as raízes nos perseguidores e não nas vítimas, reconhecendo os mecanismos objetivos e subjetivos que tornam as pessoas capazes de cometer atos tão bárbaros como o racismo. Porém, como isso não é possível dada a condição histórica do sujeito em questão (em termos menos rebuscados, a indisposição do deputado e de seus seguidores para qualquer diálogo), um caminho possível para entender suas ações – e, neste caso específico, a origem do ódio aos quilombolas – é identificar na própria vítima (por mais estranho que isso possa parecer) quais condições objetivas provocam tanto “terror” na extrema-direita brasileira.
Para listar tais pontos, recorri às anotações e gravações da viagem que realizei em outubro de 2014 à Comunidade Quilombola de Ivaporunduva, no Vale do Ribeira (Eldorado, SP), a mesma ofendida por Jair Bolsonaro em sua fala na Hebraica ontem. Na ocasião, eu ainda atuava como Analista de Comunicação Social em um projeto de mitigação ambiental, mas já desenvolvia as bases do que se tornaria meu primeiro projeto de tese, por isso acabei anotando bastante coisa. Neste sentido, a partir dos registros que fiz, listei as seis aparentes condições que alimentam o ódio do parlamentar contra os quilombolas, a saber:
i) História de luta e efetiva distribuição de renda. A comunidade de Ivaporunduva foi fundada no século XVII, venceu o regime escravocrata e luta há séculos contra uma sociedade marcada pela desigualdade e pelo preconceito racial. Em meio a tantas batalhas, lá existe uma coerência absurda com o que se diz e a práxis. Se o deputado de fato esteve lá como afirma, o que ele viu certamente foi um dos mais bonitos e importantes exemplos que meus olhos já puderam testemunhar em solo brasileiro de organização comunitária e efetiva distribuição de renda entre os moradores.
ii) Importância do acesso às políticas sociais. Mas nem sempre o diagnóstico apresentado acima – com alguma renda para ser distribuída – foi a realidade. O quilombo de Ivaporunduva também é um exemplo da importância do acesso aos programas sociais. Até o início do governo Lula, em 2002, a coisa era diferente por lá. Foi na Capela Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Ivaporunduva, datada de 1775, que Benedito da Silva, mais conhecido como Seu Ditão, um dos líderes mais antigos da comunidade, me relatou: "Antes nem todos os dias tínhamos arroz na mesa. Hoje, com o acesso às políticas públicas e o fortalecimento da associação dentro do quilombo, a coisa é diferente. Pode olhar aí, quase toda família tem seu carro novo na garagem".
iii) Esvaziamento da falácia sobre “assistencialismo imediatista”. Outro relato que registrei é que o primeiro programa social ao qual tiveram acesso foi o de distribuição de cestas básicas. Com a garantia da comida na mesa em uma quantidade mínima para se trabalhar com dignidade, os quilombolas utilizaram esse primeiro programa como impulso para se organizar de forma comunitária (e não como ponto final do percurso, como maldosamente prega a direita brasileira), procuraram novas formas de gerar recurso e descobriram, também através do acesso às políticas públicas, que tinham potencial para a agricultura familiar. Iniciaram o cultivo de banana orgânica e passaram a vender a fruta para o governo fornecer como merenda nas escolas públicas. Desde então, cancelaram o recebimento da cesta básica que já não era mais necessária e investiram, também, na produção de derivados da banana, cabendo à associação comunitária coordenar todo o sistema de divisão da receita que a agricultura gera.
iv) Resistência ao assédio do capital privado em áreas de preservação ambiental e cultural. Outra área de atuação importante dos quilombolas do Vale do Ribeira é o ecoturismo. Os quilombos estão cravados no coração de uma reserva de mata atlântica com cachoeiras lindíssimas e inúmeras cavernas, área extremamente assediada por grupos privados que buscam explorar o potencial turístico. Os quilombolas rejeitaram as investidas do capital externo e construíram sua própria pousada. Na região do parque, eles se organizaram e montaram a equipe responsável por guiar os visitantes. À época, Seu Ditão me narrou: "se tivéssemos aceitado a interferência e gestão externa do nosso território quando descobriram esse potencial turístico, essa natureza provavelmente não estaria mais aí".
v) Participação política efetiva e ocupação dos espaços com a pauta quilombola. Os líderes das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira participam ativamente do movimento nacional dos quilombolas através da CONAQ (Coordenação Nacional das Comunidades Quilombolas), ocupando cargos na diretoria e presidência. Muitos cursaram graduação e pós-graduação nas melhores universidades públicas do país e levam todo o conhecimento para dentro da comunidade, contribuindo para a organização social do espaço e para a luta quilombola. Na comunidade, os jovens participam das decisões dentro da associação a partir dos 16 anos de idade, permitindo uma formação para o debate nos espaços púbicos e a participação crítica como cidadãos ou líderes comunitários.
vi) O operário barbudo. Um dos grandes problemas estruturais que o quilombo de Ivaporunduva enfrentou ao longo de sua história foi o acesso até a cidade através do rio. Um barbudo operário certa vez passou por lá e percebeu a importância de se construir uma ponte nova para melhorar a vida da comunidade. Ele comentou que, se um dia acontecesse o inesperado fato de um operário se tornar presidente da República, iria dar um jeito de fazer a tal ponte. Ele inaugurou a ponte pessoalmente em 2010.
Como disse anteriormente, a origem do ódio é multifacetada e complexa, mas objetivamente podemos tomar os fatos descritos acima como explicação parcial da aversão dessa massa de “Bolsonaros” aos quilombolas. Afinal, os quilombolas do Vale do Ribeira são apenas um entre incontáveis exemplos que comprovam a determinação do povo negro em uma luta de resistência contra a desigualdade, pelo direito do acesso às políticas sociais e pela preservação do patrimônio natural, histórico e cultural das comunidades tradicionais. Eles representam tudo que o Bolsonaro mais teme (e por isso tem ódio): a força do povo humilde brasileiro.
Eu, da minha parte, só posso agradecer. Às companheiras e aos companheiros de Ivaporunduva, obrigado pelo aprendizado sem igual que vocês me proporcionaram naquela conturbada semana pré-eleições em 2014. Vocês são a prova viva da vitória da utopia sobre a barbárie. E viva Zumbi!.
Preciso concordar que não existe uma grande novidade na pauta, afinal, todos nós, progressistas, sabemos que o parlamentar em questão adota práticas e discursos conservadores que estão impregnados de machismo, misoginia, homofobia... e por aí vai. Na verdade, a turma reaça também sabe disso, só finge que não, pois compartilha das mesmas opiniões. Portanto, é imperativo entendermos que não lidamos com um, mas – por mais nefasta que a imagem possa parecer – com uma massa acéfala e amorfa de “Bolsonaros”. Daí a importância de entender o ódio que move essa gente, evitando a naturalização de qualquer modus operandi fascista.
As origens para o discurso e as práticas de ódio são diversas e não têm uma explicação simples, mas certamente passam por uma sociedade doente, composta por indivíduos semiformados (do alemão “halbbildung”), incapazes de agir e pensar criticamente. No referido contexto, podemos dizer que Bolsonaro e sua trupe se enquadram perfeitamente naquilo que o filósofo e sociólogo frankfurtiano Theodor Adorno (1903-1969) chamou de síndrome fascista (ou da personalidade autoritária), fenômeno sóciopsicológico caracterizado pela identificação com as elites, pelo preconceito étnico e racial, pela obsessão em relação à sexualidade, pela agressividade reprimida e pelo sadomasoquismo.
Destarte, considerando tal cenário, um caminho importante para entender o ódio seria buscar as raízes nos perseguidores e não nas vítimas, reconhecendo os mecanismos objetivos e subjetivos que tornam as pessoas capazes de cometer atos tão bárbaros como o racismo. Porém, como isso não é possível dada a condição histórica do sujeito em questão (em termos menos rebuscados, a indisposição do deputado e de seus seguidores para qualquer diálogo), um caminho possível para entender suas ações – e, neste caso específico, a origem do ódio aos quilombolas – é identificar na própria vítima (por mais estranho que isso possa parecer) quais condições objetivas provocam tanto “terror” na extrema-direita brasileira.
Para listar tais pontos, recorri às anotações e gravações da viagem que realizei em outubro de 2014 à Comunidade Quilombola de Ivaporunduva, no Vale do Ribeira (Eldorado, SP), a mesma ofendida por Jair Bolsonaro em sua fala na Hebraica ontem. Na ocasião, eu ainda atuava como Analista de Comunicação Social em um projeto de mitigação ambiental, mas já desenvolvia as bases do que se tornaria meu primeiro projeto de tese, por isso acabei anotando bastante coisa. Neste sentido, a partir dos registros que fiz, listei as seis aparentes condições que alimentam o ódio do parlamentar contra os quilombolas, a saber:
i) História de luta e efetiva distribuição de renda. A comunidade de Ivaporunduva foi fundada no século XVII, venceu o regime escravocrata e luta há séculos contra uma sociedade marcada pela desigualdade e pelo preconceito racial. Em meio a tantas batalhas, lá existe uma coerência absurda com o que se diz e a práxis. Se o deputado de fato esteve lá como afirma, o que ele viu certamente foi um dos mais bonitos e importantes exemplos que meus olhos já puderam testemunhar em solo brasileiro de organização comunitária e efetiva distribuição de renda entre os moradores.
ii) Importância do acesso às políticas sociais. Mas nem sempre o diagnóstico apresentado acima – com alguma renda para ser distribuída – foi a realidade. O quilombo de Ivaporunduva também é um exemplo da importância do acesso aos programas sociais. Até o início do governo Lula, em 2002, a coisa era diferente por lá. Foi na Capela Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Ivaporunduva, datada de 1775, que Benedito da Silva, mais conhecido como Seu Ditão, um dos líderes mais antigos da comunidade, me relatou: "Antes nem todos os dias tínhamos arroz na mesa. Hoje, com o acesso às políticas públicas e o fortalecimento da associação dentro do quilombo, a coisa é diferente. Pode olhar aí, quase toda família tem seu carro novo na garagem".
iii) Esvaziamento da falácia sobre “assistencialismo imediatista”. Outro relato que registrei é que o primeiro programa social ao qual tiveram acesso foi o de distribuição de cestas básicas. Com a garantia da comida na mesa em uma quantidade mínima para se trabalhar com dignidade, os quilombolas utilizaram esse primeiro programa como impulso para se organizar de forma comunitária (e não como ponto final do percurso, como maldosamente prega a direita brasileira), procuraram novas formas de gerar recurso e descobriram, também através do acesso às políticas públicas, que tinham potencial para a agricultura familiar. Iniciaram o cultivo de banana orgânica e passaram a vender a fruta para o governo fornecer como merenda nas escolas públicas. Desde então, cancelaram o recebimento da cesta básica que já não era mais necessária e investiram, também, na produção de derivados da banana, cabendo à associação comunitária coordenar todo o sistema de divisão da receita que a agricultura gera.
iv) Resistência ao assédio do capital privado em áreas de preservação ambiental e cultural. Outra área de atuação importante dos quilombolas do Vale do Ribeira é o ecoturismo. Os quilombos estão cravados no coração de uma reserva de mata atlântica com cachoeiras lindíssimas e inúmeras cavernas, área extremamente assediada por grupos privados que buscam explorar o potencial turístico. Os quilombolas rejeitaram as investidas do capital externo e construíram sua própria pousada. Na região do parque, eles se organizaram e montaram a equipe responsável por guiar os visitantes. À época, Seu Ditão me narrou: "se tivéssemos aceitado a interferência e gestão externa do nosso território quando descobriram esse potencial turístico, essa natureza provavelmente não estaria mais aí".
v) Participação política efetiva e ocupação dos espaços com a pauta quilombola. Os líderes das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira participam ativamente do movimento nacional dos quilombolas através da CONAQ (Coordenação Nacional das Comunidades Quilombolas), ocupando cargos na diretoria e presidência. Muitos cursaram graduação e pós-graduação nas melhores universidades públicas do país e levam todo o conhecimento para dentro da comunidade, contribuindo para a organização social do espaço e para a luta quilombola. Na comunidade, os jovens participam das decisões dentro da associação a partir dos 16 anos de idade, permitindo uma formação para o debate nos espaços púbicos e a participação crítica como cidadãos ou líderes comunitários.
vi) O operário barbudo. Um dos grandes problemas estruturais que o quilombo de Ivaporunduva enfrentou ao longo de sua história foi o acesso até a cidade através do rio. Um barbudo operário certa vez passou por lá e percebeu a importância de se construir uma ponte nova para melhorar a vida da comunidade. Ele comentou que, se um dia acontecesse o inesperado fato de um operário se tornar presidente da República, iria dar um jeito de fazer a tal ponte. Ele inaugurou a ponte pessoalmente em 2010.
Como disse anteriormente, a origem do ódio é multifacetada e complexa, mas objetivamente podemos tomar os fatos descritos acima como explicação parcial da aversão dessa massa de “Bolsonaros” aos quilombolas. Afinal, os quilombolas do Vale do Ribeira são apenas um entre incontáveis exemplos que comprovam a determinação do povo negro em uma luta de resistência contra a desigualdade, pelo direito do acesso às políticas sociais e pela preservação do patrimônio natural, histórico e cultural das comunidades tradicionais. Eles representam tudo que o Bolsonaro mais teme (e por isso tem ódio): a força do povo humilde brasileiro.
Eu, da minha parte, só posso agradecer. Às companheiras e aos companheiros de Ivaporunduva, obrigado pelo aprendizado sem igual que vocês me proporcionaram naquela conturbada semana pré-eleições em 2014. Vocês são a prova viva da vitória da utopia sobre a barbárie. E viva Zumbi!.
Artigo sobre o selfie e a morte da experiência na Revista Vitória (ISSN: 2317-4102)
O selfie e a morte da experiência: o dia em que viramos de costas para o Santo Padre.
Celulares parecem mais relevantes que a realidade.
Foto: Emerson Campos (JAN/2017)
Foto: Emerson Campos (JAN/2017)
Uns ou outros podem até contestar, mas precisamos admitir que, via de regra, sair para jantar com a pessoa querida ou conhecer uma nova cidade já não parece ter a mesma magia sem um celular carregado e com acesso à internet. Isso porque, viciados em imagens, acreditamos cegamente que é preciso registrar e compartilhar cada momento para garantir sua validade. O resultado disso? Estamos matando a experiência com selfies.
Sei que a tese supracitada pode parecer desconcertante, mas permitam-me explicar. Enquanto contemporâneos às redes sociais online, nossa existência se dá em uma sociedade marcada pela supersaturação dos nossos sentidos a partir de uma multiplicação exponencial de imagens que superam de maneira imensurável nossa capacidade de consumi-las. O resultado de tal frenesi, conforme analisa o filósofo Christoph Türcke, é que experimentamos um descolamento no sentido fisiológico daquilo que anteriormente significou sensação: hoje a ‘imagem sensacional’ parece valer mais que o sentir.
E assim, na busca de alimentar o corpo com sensações imagéticas, inventamos, sem perceber, novo sentido semântico para o verbo ‘existir’. Tal como ocorreu com Gregor Samsa, personagem kafkaniano metamorfoseado em um gigantesco inseto, testemunhamos a famosa citação de René Descartes (1596-1650) ressurgir com uma assustadora e cascuda reinauguração terminológica: “posto, logo existo”.
Trocando em miúdos: você e seus amigos se reencontram após anos e, ao invés de conversar, tratam logo de passar a noite tentando o selfie perfeito; ou o pênalti decisivo para o seu time é marcado e, mesmo no estádio, você assiste à cobrança pela tela do celular enquanto filma. Estariam as imagens vencendo o real?
Muitos filósofos contemporâneos defenderão que é a virtualização do real. Eu não diria isto. Acredito sim que falamos da dura vitória da vivência rasteira (Erlebnis) sobre a experiência verdadeira (Erfahrung), como já constatava o filósofo Walter Benjamin (1892-1940) à sua época. Ou, talvez, da postergação da experiência autêntica para uma experiência forjada a ser vivida em outro momento na tela.
Permitam-me ilustrar com um breve relato. No último janeiro estive com minha família na audiência com o Papa Francisco, no Vaticano. Haviam aproximadamente cinco mil presentes. O objetivo de todos era ver o Santo Padre e ouvir sua mensagem, correto? Errado. Em sua maioria, os fiéis buscavam o melhor ângulo, a melhor foto. Ao invés de experenciar a presença do Sucessor de Pedro, a maioria preferiu dedicar os esforços à produção de imagens que permitissem, em um momento posterior, verificar se tinham conseguido estar ou não com o Papa. Teve quem virasse de costas em sua passagem para tentar um selfie. Por isso, por mais dura que a tese neste artigo possa parecer, é preciso destacar que mais devastadoras são as consequências da vitória do selfie sobre a experiência. E não há uma grande solução a ser proposta, a não ser: na próxima viagem, deixe o celular o maior tempo possível desligado. A lembrança do momento será muito mais rica que qualquer imagem.
Sei que a tese supracitada pode parecer desconcertante, mas permitam-me explicar. Enquanto contemporâneos às redes sociais online, nossa existência se dá em uma sociedade marcada pela supersaturação dos nossos sentidos a partir de uma multiplicação exponencial de imagens que superam de maneira imensurável nossa capacidade de consumi-las. O resultado de tal frenesi, conforme analisa o filósofo Christoph Türcke, é que experimentamos um descolamento no sentido fisiológico daquilo que anteriormente significou sensação: hoje a ‘imagem sensacional’ parece valer mais que o sentir.
E assim, na busca de alimentar o corpo com sensações imagéticas, inventamos, sem perceber, novo sentido semântico para o verbo ‘existir’. Tal como ocorreu com Gregor Samsa, personagem kafkaniano metamorfoseado em um gigantesco inseto, testemunhamos a famosa citação de René Descartes (1596-1650) ressurgir com uma assustadora e cascuda reinauguração terminológica: “posto, logo existo”.
Trocando em miúdos: você e seus amigos se reencontram após anos e, ao invés de conversar, tratam logo de passar a noite tentando o selfie perfeito; ou o pênalti decisivo para o seu time é marcado e, mesmo no estádio, você assiste à cobrança pela tela do celular enquanto filma. Estariam as imagens vencendo o real?
Muitos filósofos contemporâneos defenderão que é a virtualização do real. Eu não diria isto. Acredito sim que falamos da dura vitória da vivência rasteira (Erlebnis) sobre a experiência verdadeira (Erfahrung), como já constatava o filósofo Walter Benjamin (1892-1940) à sua época. Ou, talvez, da postergação da experiência autêntica para uma experiência forjada a ser vivida em outro momento na tela.
Permitam-me ilustrar com um breve relato. No último janeiro estive com minha família na audiência com o Papa Francisco, no Vaticano. Haviam aproximadamente cinco mil presentes. O objetivo de todos era ver o Santo Padre e ouvir sua mensagem, correto? Errado. Em sua maioria, os fiéis buscavam o melhor ângulo, a melhor foto. Ao invés de experenciar a presença do Sucessor de Pedro, a maioria preferiu dedicar os esforços à produção de imagens que permitissem, em um momento posterior, verificar se tinham conseguido estar ou não com o Papa. Teve quem virasse de costas em sua passagem para tentar um selfie. Por isso, por mais dura que a tese neste artigo possa parecer, é preciso destacar que mais devastadoras são as consequências da vitória do selfie sobre a experiência. E não há uma grande solução a ser proposta, a não ser: na próxima viagem, deixe o celular o maior tempo possível desligado. A lembrança do momento será muito mais rica que qualquer imagem.
10/03/2017
20/02/2017
Artigo sobre Walter Benjamin na Revista Pró-Discente, do PPGE-UFES (ISSN: 1676-840X)
Fragmentos benjaminianos e quatro caminhos para a pesquisa em educação: experiência, infância, arte e poder.
Resumo
Walter Benjamin é, em todas as acepções da palavra, “inclassificável” (LÖWY, 2005). Autor de uma obra ampla e fragmentada, densa e hermética, que reúne de maneira única – mas não sobrepõe – influências marxistas, românticas e messiânicas, o pensador berlinense tem fomentado uma diversidade considerável de propostas de pesquisa em Educação na atualidade, multiplicidade que, entre outras razões, se justifica pela própria abrangência e pelo caráter anacrônico de sua produção como filósofo e crítico literário. Destarte, este trabalho de revisão bibliográfica busca contribuir para o avanço das investigações que tomam os conceitos benjaminianos como base, explicitando em um mosaico, que não pretende ser definitivo, quatro diferentes eixos temáticos que podem nortear novos estudos críticos na área da Educação: experiência, infância, arte e poder.

11/02/2017
Greve da PM no ES: a invenção da barbárie para a classe média capixaba
Para grande
parte dos moradores de bairros mais nobres, a violência foi descoberta no
último sábado. Para a periferia, ela é o cotidiano
Foto: Tânia Rêgo/ABr (Reprodução DomTotal)
Nota. Texto escrito para o Portal DomTotal. Publicado também no Diário do Centro do Mundo.
Desde sábado, o Espírito
Santo – diga-se de passagem, quase sempre preterido nas manchetes nacionais por
qualquer assunto desimportante que garanta audiência – ganhou notoriedade em
diferentes veículos da mídia tradicional no país com o estouro da greve da
Polícia Militar, movimento que, camuflado pela encenação de familiares
bloqueando a saída dos batalhões e companhias, esvaziou em sua totalidade o
efetivo da corporação das ruas.
Uma
proliferação dantesca de furtos, assaltos, arrombamentos, arrastões e
homicídios pelas ruas do estado. Só mortes, até o fechamento deste texto, foram
75. Número suficientemente estarrecedor (e, sobretudo, próximo no sentido
geográfico) para convencer a classe média de que foi descoberto algo digno de
se gritar, a plenos pulmões, eureca:
–
Inventou-se a barbárie capixaba!
Tal
percepção está ilustrada na coluna de opinião publicada na última terça-feira,
07 de fevereiro, no jornal A
Gazeta (ES), que constata em
tom indignado: “a rotina do capixaba virou um filme de terror”.
O
registro supracitado só ajuda a corroborar uma certeza autoritária entre os
moradores dos bairros mais abonados do estado: é preciso buscar o remédio que
coloque fim neste longa-metragem macabro, ‘novidade absurda’ que brotou nos
últimos dias.
Destarte
– como a miséria do espírito humano e a falência do nosso modo de vida sempre
podem superar a mera aparência dos números –, outra consequência da greve é a
multiplicação, em velocidade exponencial, dos grupos de justiceiros e dos
mantras fascistas de indignação, quase sempre resumidos na repetição de uma só
palavra por três vezes, como dão testemunho incontáveis vídeos gravados pela
cidade a cada batedor de carteira detido por ‘populares’:
–
Mata, mata, mata!
Mais
uma vez, eureca. Em uma lógica quase irrefutável na mente dos justiceiros,
surge a cura da violência que bate à porta: mais violência. E assim caminha
grande parte da classe média capixaba, tal como Otto Adolf Eichmann, engenheiro
nazista descrito por Hannah Arendt como um “bom pai de
família”, mas que foi capaz de projetar todo o sistema de extermínio em
Auschwitz. Um homem amoroso e atento aos seus, mas cego com quem acreditava ser
diferente. Tudo em nome do bem-estar do grupo.
Sei
que o diagnóstico é duro e a descrição até este ponto do texto marcada – em
parte considerável – pela ironia. Mas é para ser, pois quase sempre faltam
recursos textuais a qualquer um que pretenda descrever o absurdo. E (repetindo
palavras) mais absurda que a própria situação – e aqui não
estou discutindo as motivações ou a legitimidade do movimento dos policiais
militares, tampouco a gravidade dos crimes cometidos nas ruas – é a aceitação
do discurso (elaborado e amplamente divulgado por toda a mídia) de que a
violência começou no último sábado e vai acabar quando a PM voltar. Não vai.
Para grande parte da
classe média, a barbárie pode ter tido início no último sábado. Para a
periferia, ela é o cotidiano. Os jornais só não mostram isso.
E
se a imprensa não cobre como deveria, imagino que deva ser mesmo difícil para
alguns grupos sociais aceitar que o medo, a violência e a barbárie fazem parte
do dia-a-dia do Espírito Santo, sobretudo para quem nunca entrou em um bairro
de periferia dominado pela disputa do tráfico de drogas, onde o estado não
chega de forma alguma, a não ser fardado (e normalmente em condições não
amistosas, para não dizer outra coisa).
Outro
ponto a ser considerado é que (salvo raríssimas publicações e a desgosto dos
excelentes repórteres que habitam as redações do ES, muitos dos quais tenho
orgulho de ter sido colega ou professor) a imprensa capixaba vive em função da
apuração pelo Boletim de Ocorrência. Isto significa que a despeito de todo o
esforço de cobrir as cenas de homicídio (que posso testemunhar que existe), os
critérios de notícia ainda são os mesmos de um século atrás, bem como os
vínculos econômicos e políticos. Em outros termos: cobre-se jornalisticamente o
resultado, jamais a causa do problema.
Por
isso, neste momento que deveria ser marcado pela reflexão, mas que tem sido
preenchido por certezas conservadoras, proponho, a partir da dura constatação
de um problema de interpretação da realidade por um segmento social e tomando
emprestada (de forma modesta) a Teoria Crítica do filósofo alemão Theodor W.
Adorno (1903-1969), lançar crítica negativa às verdades estabelecidas em um
processo dialético que deveria ser constante e exaustivo, mas que podemos
fazer, por ora, de maneira breve. Para tal, basta um pouco de empatia e
disposição para refletir sobre pontos de vista diferentes. Assim, proponho
cinco grupos compostos por distintas questões, a saber:
i)
Será que a classe média sabe que está experimentando uma amostra pífia do medo
que os moradores da periferia vivem diariamente, provocado, inclusive, pela
própria PM? Que os mais afetados pelo movimento são os mais pobres, obrigados a
atravessar o fogo cruzado do acerto de contas entre diferentes grupos
criminosos? E se ela não sabe,
qual é a causa disso? Podemos culpar a desinformação produzida pelos veículos
tradicionais de mídia ou temos um problema social mais grave, que inclui outras
instâncias educativas e de formação cultural dentro de nossa sociedade?
ii)
Em meio aos discursos conservadores surge o discurso imperativo de que a PM é
indispensável, mas será que uma parte da solução para a violência que a classe
média está testemunhando nestes dias (reforçando: que existe no cotidiano dos
mais pobres) não é a desmilitarização da polícia? Ou, pensando na extinção e
desarticulação dos grupos criminosos, a legalização da produção, venda e consumo
da maconha (como, aliás, foi proposto recentemente pelo ministro do STF, Luís
Roberto Barroso)?
iii)
Quais fatores sociais justificam ou explicam o comportamento autoritário do
dito “cidadão de bem” que ao perceber a proximidade da violência decide levá-la
ao extremo como forma de superação?
iv)
É possível se solidarizar com os militares como companheiros da classe
trabalhadora (mesmo sabendo das condições precárias do trabalho) quando os
mesmos se reafirmam manifestação após manifestação (de professores,
estudantes...), com balas e muita porrada, como pertencentes a uma outra
categoria, que vive sob outro conjunto de leis e privilégios? Por outro lado, é
possível negar o escárnio com que o governo do estado trata o movimento
grevista (vide depoimento do Secretario de Segurança Pública, André Garcia, que
tratou o movimento da categoria como “teatrinho ridículo” em entrevista ao vivo
na TV Gazeta)? Ademais, faz sentido que outras categorias de trabalhadores
aproveitem o momento – como tem ocorrido – para elaborar discursos revanchistas
contra os policiais militares?
v)
Existe jornalismo crítico na imprensa tradicional do ES? Até quando a cifra vai
valer mais que a vida? Ou que o resultado do problema será mais importante que
a causa? Quem são os mortos nestes dias de greve? Por que não se discute a
segurança de forma mais ampla, para além da greve ou dos crimes? Falta
independência para discutir a omissão do governo? Qual o medo das pautas
progressistas?
São questões que
suscitam, certamente, mais perguntas do que respostas. E o exercício deve ser
este, de reflexão constante, para que não façamos como Ulisses em sua Odisseia
de retorno à Ilha de Ítaca, quando, para vencer as sereias, pede aos remadores
para ser amarrado ao mastro da embarcação de modo que atravessasse sem se
lançar ao mar e, ao mesmo tempo, pudesse contemplar o canto. Parece estranha a
leitura, mas a problematização que busco (também inspirada na filosofia de
Theodor W. Adorno) é ainda mais simples do que o relato breve e grosseiro que
faço da narrativa de Homero. De certa forma, Ulisses é a representação de um
setor da sociedade brasileira que deseja consumir o espetáculo da violência no
noticiário, mas prefere não se lançar ao mar (ou às últimas consequências) para
buscar uma solução ao problema, justificando sua postura com as amarras da
distância. A questão que se faz urgente é: até quando vamos fingir que as
sereias não podem nos alcançar?
01/12/2016
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