17/05/2026

[Crônica] O berrante e os orixás

Segunda-feira.

 

Sonho com orixás, embora não saiba explicar muito de quê ou de qual força é feito um orixá. N’outro plano, um casal de idosos se apresenta e o guia me diz ser Ogum. Pede que eu me proteja. – Botaram projeto ruim contra você. Acordo e me benzo. Lembro da guia de Ogum que comprei no Mercado Modelo, em Salvador, no último ano. As duas primeiras que a vendedora havia me oferecido arrebentaram, uma na mão dela, outra no meu pescoço. Naquele dia, enquanto me fitava com os olhos projetados de pavor, a baiana me disse que não era bom presságio. – Você está devendo alguém, moço? Penso ter respondido que não, que sei que guia se ganha, não se compra, e que só queria uma guia de Ogum, porque Ogum é São Jorge. – Então devia estar precisando urgente de proteção. E cá estou de novo, acordado no meu quarto sem saber exatamente o que me ronda. Lembro que deixei a guia no carro. Pela porta da varanda, entra um som mecânico de moda de viola, que interrompe definitivamente qualquer possibilidade de voltar a dormir. São quatro e pouco da manhã. Do outro lado, na esquina em encruzilhada, um homem em situação de rua ouve o seu rádio. Já faz alguns meses que ele habita o recuo da entrada de um imóvel abandonado. Nos dias mais tristes, costuma bravejar contra inimigos que são invisíveis, assim como esse tal projeto que me ronda. Nos dias mais felizes, porém, ouve música. A estação escolhida toca uma moda sobre feijão e arroz, que não entendo muito bem, mas sinto um certo privilégio nostálgico por ouvir, como se aquela canção trouxesse um contorno mais romântico ao amanhecer. De repente, um berrante toca e o galo canta no que parece ser a marca do programa de rádio. – O gado acorda. De outra varanda, uma vizinha, de voz estridente, entra em dissonância com as violas. – Desliga isso ou vou chamar a polícia. Imediatamente, me recordo da festa com karaokê realizada nos últimos dias na área de festa do condomínio (não sei se pela mesma vizinha) e penso que, durante quase dez horas, aquele homem teve uma única parede como proteção de gritos intermináveis das mais diversas ordens. – Ele é quem deveria ter chamado a polícia para o nosso prédio – penso. Passam alguns minutos e a viatura chega, em tempo pra lá de recorde. Mais gritos. Palavrões. – Abaixa essa merda! Frida começa a latir. Torço para o policial não decidir levantar nada. O som para e o carro da polícia vai embora na contramão, provavelmente para atender outra emergência tão grave como aquela. Ao sair para comprar pão e passear com a Frida, dou bom dia ao homem, que segue sorrindo, mas com o som desligado. Ele retribui enquanto come um biscoito, me deseja feliz dia das mães e lembra que o dia dos pais não tarda. Agradece pelos presentes que lhe dei – embora não tenha lhe dado nada – e diz que conseguiu pegar o ladrão que tentou lhe roubar. Quando já estou do outro lado da rua, pronuncia mais algumas palavras que não consigo compreender e se despede. Sigo meu percurso pensando em tudo. No projeto ruim, na aula de linguística que darei logo mais, em colocar minha guia de Ogum, porque Ogum é São Jorge. Lembro que aquele homem de direitos negados precisa seguir a lei do silêncio. Enquanto isso os meus vizinhos de classe média gritam da varanda e cantam no karaokê. – Quem foi o infeliz que inventou o karaokê? Deveriam proibir essa merda no prédio. Lembro novamente do projeto ruim e decido não reclamar do barulho no meu próprio condomínio. Coloco a minha guia e vou trabalhar. Deixo pão com suco na encruzilhada.

 

Quarta-feira.

 

Já são quase onze da noite. Dois caminhões, uma caminhonete, um carro descaracterizado e uma viatura da Guarda Municipal estacionam na esquina. Em segundos, uma dezena de homens desembarca. São trabalhadores da limpeza pública, guardas, pessoas não identificadas e um homem com roupa camuflada e uma lanterna na mão que parece comandar a ação. Colchão, coberta, roupas, calçados e objetos de toda sorte são jogados na caçamba. Violentamente, o Estado chegou para aquele homem de direitos negados. E em instantes se foi, levando tudo de quem não tinha nada. O homem permaneceu, mas nenhum direito ficou. Faz frio.


Emerson Campos Gonçalves

05/05/2026

[Crônica] Miséria em Cuba

  

Início de 2026.

 

 

É inverno em Cuba. Nas paredes de pedra do Malecón, o mar explode em fúria fria. Penso que somente Fidel e os revolucionários a bordo do Granma poderiam vencê-lo nessas condições. Logo, porém, me distraio numa pausa demorada para observar o mar, que, como advertia Leminski, não parou para ser olhado. Fotos. A água nos espreita. Subimos em direção ao Capitólio. Viramos à esquerda, que é sempre o melhor caminho. Depois de atravessar o emaranhado de destinos que costura o coração de Havana Vieja, chegamos à Calle Mercaderes. Da parede de um café, nos acena Eça de Queiroz. Parece que pelos idos de mil oitocentos e setenta e poucos, quando cônsul na cidade, o escritor português gostava de frequentar o espaço. Entramos. Peço um expresso que, felizmente, não será expresso, pois o relógio cubano corre diferente. Enquanto aguardamos, a barista cantarola repetidas vezes, como em oração: – ¡Hace tanto frío, oh Dios mío, hace tanto frío, pobrecita de mí, pobrecíta de mí! Era meio de tarde e naquele momento a temperatura acusava implacáveis 26 C. – Uma capixaba em Cuba. Sorrisos. O café chega, mais ligeiro do que desejávamos. Um, dois goles. A mulher tinha razão. – ¡Hace tanto frío, oh Dios mío, hace tanto frío, pobrecito de mí, pobrecíto de mí! Antes de encerrarmos, uma senhora esguia, de setenta e poucos anos, corta o salão vazio em diagonal e nos repete uma frase que havíamos ouvido outra dúzia de vezes na Ilha: – La necesidad es muy grande. Eu tinha alguns pesos e dólares, mas ela queria medicações. Me disse que, caso sobrasse alguma cartela de remédio, poderia deixar por lá, no café mesmo. Ela também toma o seu expresso e sai pelas ruas. Em segundos some em meio a um grupo de turistas acompanhado por ex-integrantes – legítimos – do Buena Vista Social Club. Reunidos, seguem cantando pela rua rumo ao Festival do Charuto, organizado pelo próprio Raúl Castro, que, para a sorte deles, só aconteceria no final daquele dia e das demais datas subsequentes deste ano solar. Saímos de lá e duas ou três quadras nos separam de La Bodeguida del Medio. Já havíamos provado nos dias anteriores o famoso mojito da casa, apontado por Hemingway como sendo o melhor da Ilha. Mas, é como dizem: – Sempre bom repetir o experimento antes de afirmar qualquer coisa que seja. Na parede, a lembrança de que Salvador Allende também fora um frequentador do espaço. No balcão, algo entre dez e quinze corpos estrangeiros disputam lugar. Alguns brasileiros compõem o ambiente. Penso não haver nenhum Hemingway ou Allende ali. Mas: – Quem sabe? Afinal, quem visita Havana, em alguma medida, é revolucionário ou artista. Ou absurdamente desinformado.A dinâmica por lá, em La Bodeguida, é simples: oito dólares pelo mojito, dois para o chapéu dos músicos. E a rotatividade de clientes é tão grande como a de artistas. Você estaciona no balcão, pede a sua bebida e escuta três ou quatro músicas de um conjunto. Se você pedir a segunda rodada, certamente a banda será outra. Tomamos dois mojitos cada. Ao saber que éramos brasileiros, os artistas do segundo grupo falaram de futebol, novelas e outras coisas que nos fazem refletir sobre qual imagem exportamos para o país comunista. A música recomeça. Duas turistas se empolgam com o Chan Chan e fazem fotos e vídeos. Abraçam os músicos, dançam. Esbarram nos instrumentos. Sorrisos amarelos. Reclamam da gorjeta. Pagam os mojitos e se vão, sem contribuir com o chapéu dos músicos. – Quanta miséria dessas duas. Saem e já são abordadas na rua. De lá são levadas para o Festival da Salsa, organizado pelo próprio Raúl Castro, que, para a sorte delas, só aconteceria no final daquele dia e das demais datas subsequentes deste ano solar. Estão no grupo dos absurdamente desinformados, mas não tardam em aprender. As ruas de Havana ensinam sobre uma arte que há décadas está presente: a de sobreviver ao bloqueio ianque. Saímos. Parte da nossa moral burguesa ficou no bar e nas ruas da capital revolucionária. Crianças jogam bola na rua. Um adolescente acende um charuto.


Emerson Campos Gonçalves

16/03/2026

Artigo publicado na Liinc em Revista (A1) - "Capitalismo de vigilância e adoecimento na sociedade excitada"

Resumo

Este  artigo  explora  e  entrelaça  os  debates  sobre capitalismo  de  vigilância(Shoshana Zuboff) e sociedade excitada(Christoph Türcke). Para isso, parte da premissa de que, ao converterem as experiências e os aspectos mais íntimos da nossa vida em dados que são negociados sob a forma do capital, as empresas transnacionais que detêm as redes sociais digitais (big techs), para além de gerarem acúmulo de riqueza e poder, produzem as condições necessárias para a persistência de uma cultura do déficit de atençãoque, em última instância, produz o vício em redes sociais digitais. Destarte, o objetivo deste trabalho é, partindo de investigaçõesempíricas que evidenciam o vício em redes sociais  digitais  entre  universitários,  apresentar  caminhos  possíveis  contra  esse adoecimento. Para isso, identifica as contradições e os limites das mediações propostas pelas big techs, apontando para a necessidade de ações multilaterais contra o adoecimento e o vício.

Palavras-chave: sociedade excitada; capitalismo de vigilância; vício em redes sociais; cultura do déficit de atenção. 

Link para o paper: https://revista.ibict.br/liinc/article/view/7770/7715

02/03/2026

Visita técnico-científica à Universidad de Lima e cooperação internacional




No início deste mês de fevereiro, o Prof. Dr. Emerson Campos Gonçalves, líder do Grupo de Pesquisa Laboratório de Pesquisa Crítica em Cultura, Tecnologia e Educação (LPC CulTE), da Faculdade de Música do Espírito Santo “Maurício de Oliveira” (Fames), viajou, a convite, para realizar uma visita técnico-científica à Universidad de Lima (ULima), no Peru. 

A visita foi realizada com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), por meio do Edital 21/2024.

Durante a visita, o professor conheceu a infraestrutura e as linhas de pesquisa desenvolvidas na ULima, fez reuniões com as equipes de pesquisa e internacionalização do Instituto de Investigación Científica (IDIC) e pode acompanhar de perto os trabalhos desenvolvidos no Grupo de Investigación en Comunicación, Educación y Cultura, coordenado pelo Prof. Dr. Julio César Mateus Borea, uma das principais referências sobre o estudo em educação midiática e desinformação na América Latina.

Leia a notícia completa no site da Fames

Entre os principais resultados da visita técnica está o estabelecimento de um canal de cooperação científica entre os grupos para que a ULima, a Fames e, também, a Universidade Federal do Espírito Santo (onde o docente é professor permanente no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades) desenvolvam pesquisas em conjunto e realizem o intercâmbio de estudantes e docentes, fortalecendo a internacionalização nas Instituições.

Participação de professora da Ufes e classe de verão

A visita foi acompanhada pela Profa. Dra. Juliana Barbosa Coitinho, docente na Ufes e uma das coordenadoras e orientadora na pesquisa sobre vício em redes sociais desenvolvida dentro do LPC CulTE (Edital Fapes 28/2022). Na ocasião, o Prof. Emerson ministrou uma classe no curso de verão sobre Fundamentos da Comunicação e apresentou os resultados parciais dessa pesquisa.

Crédito das fotos: Equipe de Comunicação do IDIC/ULima

Congressos em que estive com o LPC CulTE entre 2023 e 2025

Os últimos três anos foram estratégicos para o desenvolvimento do LPC CulTE/Fames e para a consolidação das nossas atividades de pesquisa. Nesse período, conseguimos, com apoio dos nossos estudantes de IC e de mestrado, levar os trabalhos desenvolvidos pelo grupo para os principais eventos científicos da nossa área. Além dos seminários locais (realizados na Fames, na Ufes e no HUBES+), estivemos em dois Congressos Nacionais da Intercom (BH e Vitória); um Congresso Nacional da Anpof (Recife); um Congresso Nacional da Anped e um Internacional da WERA (João Pessoa); e um Congresso Internacional de Teoria Crítica (São Carlos). A participação nesses eventos contou com apoio da Fapes, da Fames e da Ufes.

As participações nesses eventos são sempre registradas em tempo real no Instagram do LPC CulTE.

Neste ano de 2026, a nossa prospecção/intenção é de levar os nossos trabalhos ao menos ao Coninter, que será em Salvador; e novamente à Intercom, que será em Brasília.

Algumas imagens dos últimos eventos:

Congresso Internacional de Teoria Crítica (UFSCar - São Carlos/SP, 2025).



Anped & WERA (UFPB - João Pessoa/PB, 2025).




Intercom Nacional (FAESA - Vitória/ES, 2025).



ANPOF (UFPE - Recife/PE, 2024).




Intercom Nacional (PUC Minas - BH/MG, 2023).




Outros eventos e atividades (palestra na São Domingos e evento no HUB ES+):