Segunda-feira.
Sonho com orixás, embora não saiba explicar muito de quê ou de qual força é feito um orixá. N’outro plano, um casal de idosos se apresenta e o guia me diz ser Ogum. Pede que eu me proteja. – Botaram projeto ruim contra você. Acordo e me benzo. Lembro da guia de Ogum que comprei no Mercado Modelo, em Salvador, no último ano. As duas primeiras que a vendedora havia me oferecido arrebentaram, uma na mão dela, outra no meu pescoço. Naquele dia, enquanto me fitava com os olhos projetados de pavor, a baiana me disse que não era bom presságio. – Você está devendo alguém, moço? Penso ter respondido que não, que sei que guia se ganha, não se compra, e que só queria uma guia de Ogum, porque Ogum é São Jorge. – Então devia estar precisando urgente de proteção. E cá estou de novo, acordado no meu quarto sem saber exatamente o que me ronda. Lembro que deixei a guia no carro. Pela porta da varanda, entra um som mecânico de moda de viola, que interrompe definitivamente qualquer possibilidade de voltar a dormir. São quatro e pouco da manhã. Do outro lado, na esquina em encruzilhada, um homem em situação de rua ouve o seu rádio. Já faz alguns meses que ele habita o recuo da entrada de um imóvel abandonado. Nos dias mais tristes, costuma bravejar contra inimigos que são invisíveis, assim como esse tal projeto que me ronda. Nos dias mais felizes, porém, ouve música. A estação escolhida toca uma moda sobre feijão e arroz, que não entendo muito bem, mas sinto um certo privilégio nostálgico por ouvir, como se aquela canção trouxesse um contorno mais romântico ao amanhecer. De repente, um berrante toca e o galo canta no que parece ser a marca do programa de rádio. – O gado acorda. De outra varanda, uma vizinha, de voz estridente, entra em dissonância com as violas. – Desliga isso ou vou chamar a polícia. Imediatamente, me recordo da festa com karaokê realizada nos últimos dias na área de festa do condomínio (não sei se pela mesma vizinha) e penso que, durante quase dez horas, aquele homem teve uma única parede como proteção de gritos intermináveis das mais diversas ordens. – Ele é quem deveria ter chamado a polícia para o nosso prédio – penso. Passam alguns minutos e a viatura chega, em tempo pra lá de recorde. Mais gritos. Palavrões. – Abaixa essa merda! Frida começa a latir. Torço para o policial não decidir levantar nada. O som para e o carro da polícia vai embora na contramão, provavelmente para atender outra emergência tão grave como aquela. Ao sair para comprar pão e passear com a Frida, dou bom dia ao homem, que segue sorrindo, mas com o som desligado. Ele retribui enquanto come um biscoito, me deseja feliz dia das mães e lembra que o dia dos pais não tarda. Agradece pelos presentes que lhe dei – embora não tenha lhe dado nada – e diz que conseguiu pegar o ladrão que tentou lhe roubar. Quando já estou do outro lado da rua, pronuncia mais algumas palavras que não consigo compreender e se despede. Sigo meu percurso pensando em tudo. No projeto ruim, na aula de linguística que darei logo mais, em colocar minha guia de Ogum, porque Ogum é São Jorge. Lembro que aquele homem de direitos negados precisa seguir a lei do silêncio. Enquanto isso os meus vizinhos de classe média gritam da varanda e cantam no karaokê. – Quem foi o infeliz que inventou o karaokê? Deveriam proibir essa merda no prédio. Lembro novamente do projeto ruim e decido não reclamar do barulho no meu próprio condomínio. Coloco a minha guia e vou trabalhar. Deixo pão com suco na encruzilhada.
Quarta-feira.
Já são quase onze da noite. Dois caminhões, uma caminhonete, um carro descaracterizado e uma viatura da Guarda Municipal estacionam na esquina. Em segundos, uma dezena de homens desembarca. São trabalhadores da limpeza pública, guardas, pessoas não identificadas e um homem com roupa camuflada e uma lanterna na mão que parece comandar a ação. Colchão, coberta, roupas, calçados e objetos de toda sorte são jogados na caçamba. Violentamente, o Estado chegou para aquele homem de direitos negados. E em instantes se foi, levando tudo de quem não tinha nada. O homem permaneceu, mas nenhum direito ficou. Faz frio.
Emerson Campos Gonçalves


































