31/12/2018

Artigo na Via Atlântica (A2 em Educação)


Publiquei neste dezembro, em coautoria com o Prof. Dr. Robson Loureiro, um artigo na conceituada Via Atlântica (Revista A2 em Educação). Trata-se do estudo "Limites entre Jornalismo e Literatura em 'A guerra não tem rosto de mulher', de Svetlana Aleksiévitch: uma análise do narrador a partir do conceito benjaminiano de Erfahrung".

Abaixo estão os resumos e links de acesso para o nosso trabalho e, também, para toda a edição da revista, que está belíssima.

Resumo do artigo:

"Observar o tracejado que divide jornalismo e literatura pode significar a avaliação de uma linha tênue ou a comparação entre galáxias distantes. Tal paradoxo é nutrido pelo deslocamento constante de fronteiras, sobretudo nos formatos híbridos, sendo impossível estabelecer definitivamente limites éticos e estéticos que encerrem cada narrativa. Partindo dessa imprecisão, este estudo recorre à categoria de Erfahrung (experiência), presente nos estudos de Walter Benjamin, para investigar os tensionamentos do narrador em “A guerra não tem rosto de mulher”, de Svetlana Aleksiévitch. O objetivo é discutir a importância do Jornalismo Literário como proposta contra-hegemônica efetiva aos mass media."


Resumo da edição:

"Discussões em torno do livro e do jornal existem, na Europa, desde o final do século XVIII. No Brasil, esse debate estimulou a produção de gêneros híbridos, mais ou menos situados entre o fato e a ficção, entre a verdade e a verossimilhança, desde o início dos Oitocentos. Em seu 34º número, Via Atlântica reuniu pesquisadores do Brasil e do exterior, debruçados sobre a produção híbrida em diversos suportes, dentro e fora do país. Convidamos os leitores a percorrer os diversos meandros da palavra, capaz de nos conduzir para além de noções mais estreitas de verdade, honestidade e realidade."

14/11/2018

II Seminário de Humanidade do Ifes Vitória


Na última terça-feira,13, tive a alegria de ministrar o minicurso "Liberdade ou prisão? Jornalismo, Facebook, WhatsApp e a multiplicação das fake news" para os estudantes do Ifes Vitória.

O papo aconteceu como parte do II Seminário de Humanidades, inserido dentro da Semana da Consciência Negra, da Semana do Livro e da Semana de Educação Para a Vida.

Foi bacana demais o encontro com essa moçada, que se mostrou bem crítica em relação aos principais fatores que condicionam a propagação desenfreada de conteúdos fakes na rede.

Todo o debate que desenvolvi no Ifes sobre notícias falsas e redes sociais online rede está dentro de um artigo que, assim que possível, compartilharei aqui no blog.

05/11/2018

Nem tão breve pitaco sobre cinema: Bohemian Rhapsody

A primeira música do Queen que me pegou - ainda moleque e sem manjar nada de inglês - foi "Who wants to live forever" (do álbum "A Kind of Magic", de 1986). Naquele contexto dos 90 em que cresci, só tive contato com a faixa porque ela fazia parte de uma coletânea de trilhas do cinema que ganhei de presente do meu irmão (a composição foi tema do longa Highlander, lançado no mesmo ano que o disco).

Depois do primeiro contato fui me empolgando aos poucos com os clássicos da banda, mas só me tornei fã mesmo muito tarde, duas décadas depois, mais precisamente em 2011, quando por ocasião dos vinte anos sem o Freddie - e do meu trabalho como jornalista nas Gerais - precisei escrever um artigo sobre a história de amor do vocalista com Mary Austin.

Quem me conhece sabe que levo muito a sério cada linha que escrevo e foi justamente por isso que passei dois meses estudando a história do Queen (mais especificamente mergulhado no universo de Mercury) para escrever o texto para o jornal. Foram dois meses acordando e dormindo com as músicas e as histórias da banda na cabeça.

Relendo hoje o texto que publiquei na ocasião, admito que ele não ficou lá grande coisa, embora tenha recebido um elogio ou outro (que agora questiono). Enfim, acho que o texto não pegou, mas a história do Queen, de "desajustados para desajustados", essa sim... essa de alguma forma me pegou ali. E desde então a banda virou uma playlist constante na minha vida para todo e qualquer momento. Acabei me tornando um "fã tardio" e passei a apreciar cada vez mais a diversidade monstruosa das composições e arranjos.

O único problema de ter me tornado esse "fã tardio" é que, como tal, carrego a melancolia trazida pela impossibilidade de conferir todo o "desajuste" do Queen ao vivo e in loco (arrependimento que ficou ainda maior quando perdi o Brian May e Roger Taylor no Rock in Rio, mas isso é outra conversa).

Pois bem, tenho visto muitos críticos reclamarem que o longa Bohemian Rhapsody é uma versão higienista demais da vida do Freddie; ou que é mais sobre o Queen do que sobre o vocalista; ou ainda que é musical demais e abre mão de explorar aspectos da subjetividade de Mercury; ou que comete um “pecado terrível” ao ignorar a infância do pequeno Farrokh Bulsara.

Respeitosamente, discordo disso tudo. Obviamente, o filme faz um recorte, afinal não dá para contemplar todas as expectativas que qualquer produção sobre o Queen nutre (música, biografias complexas, turnês, brigas, a morte de Mercury, a banda sem o vocalista, etc). Primeiro porque não é um documentário, é uma cinebiografia. Segundo porque cinebiografias, via de regra, são recortes realizados a partir de quem as conta (e aí é óbvio que se a narrativa parte dos membros da banda e de  seu antigo empresário, o período de convivência entre seus quatro integrantes e o produtor será realçado). Isso sem contar que o próprio Freddie sempre fez questão de deixar sua infância soterrada nos escombros da própria memória (apenas Mary conhece de fato as dores e os afetos que o líder do Queen cultivou desse período).

Mais especificamente sobre a crítica de ser "higienista" no que diz respeito à sexualidade de Freddie Mercury, eu não poderia discordar mais. O filme trata de forma bastante sensível a figura do cantor enquanto indivíduo queer que carrega consigo o peso da cultura que a família busca preservar e, apesar de todas as contradições que marcam essa existência singular e atormentada, não tenta passar de forma alguma uma visão heteronormativa do astro. Ao contrário, seguindo a cronologia da vida do próprio vocalista, parte do noivado com Mary, mostra a descoberta e explosão de uma sexualidade que estava reprimida e, ao fim, retrata de forma bem sensível a ocasião em que ele decide apresentar Jim Hutton aos pais como um "amigo", reforçando o drama que marcou sua existência. Poderia ter explorado mais os “escândalos” ligados à sexualidade dele? Sim, são opções éticas e estéticas, mas tomar tal caminho, ao meu ver, seria reproduzir três décadas depois a mesma histeria sensacionalista dos tabloides ingleses dos anos 1980, algo que o próprio longa-metragem critica, deixando claro que o Queen (na vida real e no filme) sempre quis falar de música e nada mais.

E é na aposta acertada de focar na música que o longa se torna brilhante e é capaz de levar o público dentro do cinema às lágrimas, seja ele composto por fãs contemporâneos a Mercury ou "tardios", como no meu caso. Ao recriar os vintes minutos do Live Aid (com uma interpretação de arrepiar do ator Rami Malek), Bohemian Rhapsody te faz regressar dentro da sala de cinema a 1985. É como se você entrasse numa máquina do tempo e realizasse o sonho louco de desembarcar naquela que é apontada não apenas como a melhor apresentação do Queen, mas como a melhor apresentação ao vivo de uma banda de todos os tempos. E isso certamente é melhor que qualquer detalhe sensacionalista da biografia de Freddie Mercury. Em outros termos, além de valer o ingresso de um show do Queen (certamente com mais zeros que o bilhete do cinema), essa escolha permite que o filme faça justiça à memória que o líder da banda queria perpetuar, aquilo que segundo as próprias palavras ele nasceu para ser: uma lenda do rock.

26/10/2018

Apresentação na Anpof e GT de Teoria Crítica

Nesta atribulada semana que antecede o segundo turno das eleições participei do XVIII Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduações em Filosofia (Anpof), realizado na Ufes, aqui em Vitória (ES). Na ocasião tive a grande alegria de integrar o primeiro GT de Teoria Crítica da Anpof, coordenado pela Profa. Dra. Franciele Bete Petry (UFSC). 

Participei da mesa 7 do grupo, no dia 24/10, onde apresentei o trabalho "Jornalismo como antifilosofia e a propagação do discurso fascista na sociedade excitada: uma análise crítica de charges em a gazeta", fruto do artigo que publiquei na Revista Estudos de Jornalismo com o Prof. Dr. Robson  Loureiro.

Também participaram da mesa os professores Leonardo Jorge da Hora Pereira (UFBA), com o trabalho "Vigilância em massa e o poder dos dados na era digital"; Virginia Helena Ferreira da Costa (USP), com o trabalho "A fisionomia da voz do rádio nos estudos sobre autoritarismo de adorno"; e Wécio Pinheiro Araújo (UFPB), com o trabalho "A política da sensação".

Faço uma menção honrosa ao belíssimo trabalho do Prof. Wécio que, em seu doutorado sanduíche com o Prof. Dr. Christoph Türcke (ao lado de Adorno, um dos principais teóricos que sustentam minha tese de doutorado no PPGE), desenvolveu o conceito de "política da sensação". Vale muito a leitura!

Deixo aqui o link com a programação completa da Anpof. Assim que os anais forem publicados atualizo a informação aqui no blog.

05/10/2018

XI Congresso Internacional de Teoria Crítica: Estado de Exceção e Racionalidade na Idade Mídia


Nesta semana participei do X Congresso  Internacional de Teoria Crítica, na Unesp (Araraquara-SP), onde tive a oportunidade de apresentar dois trabalhos e coordenar a mesa de debates sobre Comunicação e Indústria Cultural do dia 03 de outubro. Os trabalhos que apresentei por lá foram:


  • Estudos sobre a personalidade autoritária como via para a crítica negativa da sociedade excitada: fascismo e a "segunda morte" de Marielle Franco. (Emerson Campos Gonçalves)*
  • Memória histórica, o fiasco da desnazificação e o neofascismo no início de século XXI. (Robson Loureiro, Emerson Campos Gonçalves)*

Para além de reencontros com pesquisadores que tanto admiro - como, por exemplo, a querida Profa. Dra. Estelamaris Brant Scarel (PUC-GO), que apresentou a continuidade de sua pesquisa "A indústria cultural, os meios de comunicação e experiência (de)formativa à luz da teoria crítica da sociedade" -, tive a oportunidade de conhecer novos trabalhos, dos quais destaco três pela congruência com as discussões que tentamos desenvolver no Nepefil//Ufes:

i) "Autoritarismo e Educação contra barbárie: uma análise do filme 'A fita branca'", de Débora Siqueira (PUC Minas); Ariany da Silva Bezerra (PUC Minas);

ii) "Auschwitz: um legado para a Educação", de Ariovaldo Francisco da Silva (USF) e Luzia Batista de O. Silva (USF);

iii) "Dialética Negativa, adjacências e Entzauberung: uma leitura materialista da atualidade em Theodor W. Adorno", de Guilherme Oreste Canarim (UNESC) e Alex Sander da Silva (UNESC).

São trabalhos que se cercam dos debates presentes nos Estudos sobre a Personalidade Autoritária do Grupo de Berkeley, que também levo para a tese, e da  Dialética Negativa de Adorno. Recomendo conferir estas pesquisas nos anais do evento.

Outro trabalho lindo que tive a oportunidade de conferir lá é do Prof. Dr. Miguel Vedda, da Universidade de Buenos Aires, que na mesa sobre "Filosofia, teoria social e estado de exceção" apresentou sua pesquisa sobre Siegfried Kracauer. Entre as hipóteses que defende, trazendo o debate sobre o estado de exceção para a América Latina contemporânea, Vedda retoma Marx e Kracauer e aponta que "o fascismo é a farsa da farsa". Logo, se as ditaduras foram a tragédia da América Latina e se os governos neoliberais dos anos 1990 foram a farsa, hoje vivemos a iminência da farsa da farsa que é o fascismo, preocupação que, aliás, norteou quase que a totalidade das apresentações que pude conferir, o que mostra que Adorno estava correto em prever que, perseverando as condições objetivas e subjetivas que permitiram a barbárie e a miséria absoluta do espírito humano, todo o terror pode ressurgir.

Por ora deixo o link para arquivo com a programação completa do evento. Assim que os anais forem publicados faço a atualização aqui.

[*] Vale o registro que dessa vez, o Prof. Robson e eu optamos por ampliar os trabalhos em dois artigos, por isso acabamos deixando eles de fora dos anais do evento. Assim que forem publicados compartilho aqui. Caso desejem acesso aos resumos, fiquem à vontade para entrar em contato por e-mail.